Digo-vos uma coisa: às vezes descobrir, ao fim de muitos anos, o nome original de um programa...faz uma diferença do dia para a noite. Quer dizer, tantos anos procurei pelos Traquinas...e afinal era capaz de ter tido resultados bem mais depressa se soubesse que o título em inglês era "Little Monsters"!
Até percebo o título, mas cá para mim passar de "traquina" para "monstrinho" não é a coisa mais intuitiva do mundo. Pelo menos agora já vos posso mostrar algo do desenho animado.
Informação: Em retrospetiva, é curioso e talvez até bizarro que tantos desenhos animados que passavam no Batatoon estejam tão esquecidos. Quer dizer, tanto quanto sei, o Batatoon é um programa lembrado por muitos...por vezes até por quem não acompanhou o programa. Enfim; se é verdade que o Batatoon foi um grande êxito no seu tempo, também o é que muita gente só se lembra de uns poucos desenhos animados que passavam no programa do palhaço Batatinha (os melhores, quiçá...) e esquece os restantes. Este das formigas é mais um dos esquecidos que passou no Batatoon, porque ou muito me engano ou passou no ecrã desse programa após o Batatinha ter o comando na mão e carregar no botão...
O nome original deste programa parece ser "Anthony Ant", embora eu não me lembre minimamente do título lusitano. De qualquer forma, o protagonista não se chamava Anthony cá em Portugal; chamava-se Toni e todos os seus amigos pronunciavam "Tóní" e não "Tóni". O Toni vivia várias aventuras animadas com o seu grupo de amigos e, se bem me lembro, todos eles gostavam de andar de skate. Ainda assim, cada um deles tinha um interesse que apreciava mais do que o skate. O Kevin, por exemplo, gostava de fazer malabarismos com bolas ou com quaisquer objetos que fossem fáceis de atirar ao ar. Outra das formigas gostava muito de comer. E depois havia outras personagens secundárias que apareciam de vez em quando, como o avô do Toni e uma formiga com um daqueles chapéus de explorador (como o que o Tintim usou no álbum Tintim no Congo). Ah, e já que falei em chapéus: todas as formigas deste programa usavam qualquer coisa na cabeça. O Toni usava um boné vermelho, qual TJ do programa Recreio. Os amigos dele usavam bonés de outras cores ou coisas como gorros ou fitas. Não sei porque é que puseram tantas personagens a usar algo na cabeça...se tivesse de dar um palpite, diria que era para o público se identificar mais facilmente com as personagens. Afinal, ao usar chapéus, elas lembravam mais facilmente os humanos do que lembrariam se "só" tivessem antenas no cocuruto.
Curiosamente, até os vilões usavam algo na cabeça...no caso dos 2 ajudantes tolos, eram capacetes. A meu ver, os vilões eram um dos destaques deste desenho animado. O principal vilão era um tal Conde Mosquito, que tinha a voz de Jorge Paupério. O Conde usava uma espécie de capa ou manto e dava muitas missões maléficas aos tais 2 ajudantes tolos. Estes eram o Nate e o Buzz e, como é costume neste tipo de personagens, estes 2 eram facilmente enganados pelos heróis e faziam muitas tolices. Por vezes os vilões tinham o dia quase ganho e, à última da hora, o Nate e o Buzz deitavam tudo a perder por se distraírem com facilidade ou por serem uns grandes trouxas. Outro dado interessante deste desenho animado é que os insetos, dia sim dia não, tinham de interagir com uns seres gigantescos com sapatos muito perigosos! Esses seres gigantes, como devem calcular, eram os seres humanos. Estes humanos nunca eram vistos a falar e nem sequer se via a cara completa de nenhum deles. Isto fazia com que os humanos, a quem as nossas formigas chamavam Pé Grande, parecessem mais assustadores e completamente insensíveis aos sentimentos alheios. E os tais pés grandes punham muitas vezes as formigas e os seus amigos em perigo, quer com os pés pisadores de criaturas minúsculas, quer por não as verem e lhes acertarem com alguma coisa. Felizmente, por vezes, as formigas até beneficiavam da interação com o Pé Grande. Às vezes até ganhavam alimento para um ano quando o tal Pé Grande deixava cair comida ao chão!
Alguns episódios
- As nossas amigas formigas falam e concluem que se esqueceram do aniversário do Billy, o seu compincha mais novo. Enquanto elas pensam em como resolver isto, um "Pé Grande" passa e deixa cair umas gomas coloridas. As formigas não sabem bem o que fazer com aquilo, mas de repente o Billy aparece e o Kevin tem a ideia de fingir que as gomas eram o presente que eles compraram para o aniversário do Billy! A ideia até funciona bem, pois o Billy gosta das gomas porque diz que cheiram bem, sabem bem e que dão para trepar porque são pegajosas. O problema é que depois o tal pé grande vem recolher as gomas e o Billy é levado na voragem. Ups! (alerta de spoilers: no fim do episódio, eles trazem o Billy de volta)
- Num episódio cheio de frio, as formigas daquela área enfrentavam uma espécie de frente fria causada por...não sei bem o quê. ¯\_(ツ)_/¯ O certo é que a situação não era só desconfortável; estava mesmo a dificultar o quotidiano às formigas. Elas tentavam organizar-se e reunir-se para lidar com a situação, mas não conseguiam muito. Mas o Conde Mosquito não parecia interessar-se muito pelo assunto. Mais tarde, as formigas descobriram porquê: ele tinha uma espécie de túnel privado onde circulava muito calor e o vilão passava um bom tempo lá. Inclusive, quando as formigas o descobriram, o Conde Mosquito estava confortável a tomar um banho quente, ignorando as formigas com frio lá fora. Quando o descobriram, o Conde nem teve remorsos e limitou-se a protestar: "Como é que vocês se atrevem? Eu estou a tomar banho!". O avô do Toni respondeu logo algo como "Como é que você se atreve a manter segredo desta câmara quente enquanto todos congelam lá fora?!". E assim foi...pouco depois, as formigas tinham arranjado uma forma de canalizar o calor do tal túnel/câmara para a superfície, ajudando a aquecer as coisas. E o Conde foi, digamos, "voluntário à força" para fazer um trabalho manual que essa canalização exigiu.
- Este episódio parecia um tipo de paródia à clássica história da Bela Adormecida...nele, o avô do Toni ficava doente e o seu filho rapidamente identificou a doença como sendo uma tal "febre do borbulho". Os sintomas da doença andavam entre o expectável e o surreal; se por um lado o avô tinha delírios, como os que as febres podem causar, a doença também o fazia ficar com manchas de todas as cores e depois com riscas coloridas que lhe cobriam o corpo todo, como se fosse um arco-íris ambulante! Enfim...as formigas não sabiam como o tratar, por isso imploraram à feiticeira má lá do local que salvasse o avô. Essa feiticeira, apesar de costumar ser contra as formigas, lá concordou em ajudar. E aqui veio a parte da paródia à Aurora: a cura mágica que a feiticeira conseguiu amanhar foi um beijo mágico. Isso mesmo; depois de aplicar um batom mágico (acho...), ela beijou o avô e ele melhorou num instante. Quando voltou a si, começou logo a protestar por a vilã estar em casa dele, mas eles lá lhe explicaram que ela lhe tinha salvado a vida. O avô, embora relutante, fez questão de agradecer à feiticeira.
Uma(s) voz(es): Clara Nogueira; Edgard Fernandes; Jorge Paupério; Paula Seabra; Sissa Afonso
Uma(s) personagem(ns): Arnold; Billy; Buzz; Conde Mosquito; Kevin; Nate; Pé Grande; Toni
Pela segunda vez, venho aqui ao blog lembrar uma pessoa que partiu e que trabalhou no mundo das dobragens em Portugal.
Alguém que, da minha perspetiva, era uma LENDA das dobragens:
Joel Cândido dos Santos Constantino.
(De acordo com a Wiki Dobragens Portuguesas, Constantino faleceu neste ano 2023, já no mês de Abril. Porém, eu só soube recentemente. Sendo assim, mesmo com atraso, deixo aqui qualquer coisa como o meu in memoriam.)
Tal como da outra vez que fiz um post assim, não conheci pessoalmente o dobrador em questão, portanto não faço ideia de como Joel Constantino era como pessoa. Mas, no que toca ao lado profissional, não é exagero nenhum dizer que era um dos meus dobradores portugueses de eleição. Top 5, muito provavelmente. E isso quer dizer muito num país como este, tão cheio de belas dobragens e ainda mais belas vozes. E se é verdade que a voz do sr. Constantino não foi tão omnipresente na minha infância - e na de muitos mais, aliás... - como a de Carlos Freixo, a de José Raposo ou a de Sissa Afonso, também o é que, desde muito novo, houve qualquer coisa nas vozes que Joel Constantino fazia que as tornaram mais memoráveis para mim.
Imagem disponibilizada pela edição online do jornal O Templário.
Joel Constantino no centro.
É certo que se pode questionar se era a voz do dobrador per se que era assim tão marcante ou se parecia mais marcante do que era devido à grande importância que algumas das suas personagens tiveram para mim. Bom, é possível, e eu também não sou imune a outros vieses como os que a nostalgia traz. Contudo, este assunto daria pano para mangas, portanto prefiro não me alongar sobre este assunto; deixo só aqui esta salvaguarda. Posto isto, a quantidade de personagens que Joel Constantino dobrou que são incontornáveis para mim é alta. E gostaria de falar um pouco sobre elas.
Quando penso no nome Joel Constantino, penso imediatamente no Gaspar. Sim, o Gaspar do programa O Jardim da Celeste. Esse programa foi sem dúvida um dos mais importantes dos meus primeiros anos de vida e o Gaspar sempre foi uma das minhas personagens favoritas dessa obra. Ainda que o Sócrates pudesse ser mais divertido ou a Olívia ser mais uma fonte de cenas memoráveis, o Gaspar era para mim aquela personagem da qual eu ia gostar em quase todas as cenas com ele. O moço era um pouco como a criança ideal: simpático e afável mas ligeiramente precoce e com uma certa dose de maturidade pouco comum para alguém tão novo (provavelmente causada pelo facto de o Gaspar ajudar regularmente os seus pais na quinta onde cresceu, o que levava o pequenote a ter uma maior consideração por todos os seres vivos - sim, animais e plantas incluídos - e uma melhor preparação para a vida em comunidade e para a luta pelo bem comum). Talvez por todas estas características, o Gaspar deve ter sido a personagem do Jardim da Celeste que menos problemas (ou desafios, talvez?) causava na carrinha da Celeste. Era provavelmente a marioneta que menos se zangava e menos fazia alguém zangar-se. E, também por ser tão impecável, o Gaspar inspirava-me. Ele mostrava-me mais sobre como ser boa pessoa. Eu sentia-me inspirado e acabava com mais vontade de melhorar. Um belo feito para uma "simples" personagem de um programa direcionado aos petizes.
O Gaspar tinha uma voz um pouco fininha, ligeiramente parecida com a do Tico. Refiro-me ao Tico de A Volta ao Mundo de Willy Fog, outra personagem inesquecível da minha infância. O Tico, amigo do Bigodão, era um ratinho dinâmico que agia quase como um alívio cómico numa história que era um pouco séria. Era muito agradável ouvir aquela vozinha levemente esganiçada - no bom sentido - a acrescentar uma dose de humor à viagem pelo mundo e a mostrar curiosidade por muitas coisas.
Neste momento, alguns leitores poderão não concordar muito comigo pois, da sua perspetiva, a identidade do Tico não está ligada a Joel Constantino, mas a Irene Cruz. E sim, acontece várias vezes: uma personagem é apresentada, em diferentes momentos da História, com vozes diferentes. E depois cada um prefere a sua. O mesmo não se pode dizer do Max, personagem dos Tweenies. Afinal, até hoje, só foi feita uma dobragem oficial dos Tweenies...sendo assim, não há "concorrência" e todos os que viram o programa britânico se deverão lembrar do Max com a voz de Joel Constantino. E ainda bem, porque era muito boa. Era uma personagem bem mais velha do que o Gaspar e o Tico e a voz do boneco refletia isso mesmo. O Max, assim com a Judy, era um belo apoio para os jovens Bella, Milo, Fizz e Jake, pois era um adulto que lhes ensinava umas coisas sobre como lidar com emoções negativas e como gerir conflitos. Tweenies era um programa bastante educativo, e foi pela agradável e inolvidável voz do Max que muitos ouviam lições valiosas. E bem me lembro do Max a cantar canções bem alegres, como aquela "Que posso fazer com este cabelo?". E a contar histórias como a do Pernas Para que te Quero.
A descrição deste vídeo diz justamente
"Em memória de Joel Constantino".
Porém, as personagens que eu referi até agora são aquelas das quais eu, pessoalmente, me lembro mais. E muita gente poderá não as conhecer. Bem, se vos facilitar a vida, posso dizer-vos que Joel Constantino cantou pelo menos uma canção que diferentes gerações terão facilidade em identificar. Aqui vai: Joel Constantino cantou nada menos do que...o tema de abertura de Bob, o Construtor! Ah, pois é! Sempre que alguém usa essa música numa qualquer cerimónia de jardim de infância ou sarau de escola, é a saudosa voz de Joel Constantino que estamos a ouvir! E sempre que alguém canta uma paródia para maiores de 12 dessa mesma música...bem, nesse caso não é a voz do dobrador que estamos a ouvir, mas de certa forma estamos a ouvir algo que só chegou a nós através do cantar de Joel Constantino. Afinal, se o dobrador não tivesse feito um belo trabalho a cantar o tal tema de abertura do desenho animado, quase ninguém se lembraria da canção, sequer.
Resta eu arriscar descrever a voz de Joel Constantino. Ou, pelo menos, a voz como eu a costumava ouvir na televisão, não é? Bem, é mesmo difícil descrever...a primeira palavra que me ocorre é "agradável". O sr. Constantino dava muitas vozes que, sem ser uma voz daquelas que faz uma audiência inteira voltar-se para ver quem está a falar, era muito agradável de se ouvir...fazendo novamente o paralelo do tio, eu diria que ouvir a sua voz era como ouvir aquele nosso tio que, mesmo não sendo uma das pessoas mais mencionadas da família, é sempre afável, muito diplomático e sabe dar conselhos de vida muito bons e recheados de sobriedade e de razoabilidade. Um tio discreto, mas nem por isso menos importante...esse tipo de tio. Pelo menos era isso que a voz me sugeria. Já quando Joel Constantino fazia vozes mais fininhas para personagens mais novas ou de tamanho reduzido, a sua bela voz soava (ainda) mais divertida e, em termos meramente descritivos, talvez um pouco mais "arranhada". Mas era um arranhado agradável de ouvir e que trazia alegria. E creio que é justo dizer que, nesses casos, o ator soava efetivamente mais novo do que a idade que realmente tinha.
Uma palavra ainda para um nicho extremamente recôndito da dobragem: a dobragem de personagens de jogos de PC em CD-ROM. Neste nicho do qual poucos se lembram, Joel Constantino deu voz a uma personagem importante para algumas pessoas. Qual? O Professor Isca Leto, do jogo A Aventura do Corpo Humano! Ah, a nostalgia...
Este vídeo insiste muito no jogo Dia-a-Dia.
E ainda bem, porque esse era o meu favorito! :)
Entre as dezenas de papéis que Joel Constantino desempenhou no seu trabalho de dobrador, é difícil fazer uma lista pequena para tentar reunir outros dos seus papéis mais marcantes. Mas é bem possível que alguém que veja esta lista reconheça algo nela. Cá vão, então, mais algumas obras às quais o dobrador emprestou a sua voz:
E voltando só um bocadinho ao início...em jeito de despedida, queria usar novamente a palavra lenda. Imagino que muita gente possa discordar, mas para mim é difícil falar muito de Joel Constantino sem o indicar como uma autêntica lenda da dobragem portuguesa. Quer dizer, são muitos trabalhos, durante muitos anos, e com muitas personagens marcantes muito diferentes. E, admito, o facto de nem a Wikipédia lusa ter tido uma página para Joel Constantino durante anos a fio (e, à data deste post, acho que ainda não tem...) também contribui para um certo mistério no ar. E para fazer um cidadão comum ver um dobrador como um mito. No bom sentido, claro!
Ainda que muito atrasado, digo: vá em paz, sr. Constantino. E condolências à família.
Informação: Um programa com uma ideia-base de que eu gostei muito e que, na altura, talvez até fosse um pouco inédita: a de um hospital onde os brinquedos danificados eram arranjados como se de pacientes com doenças se tratassem! Em retrospetiva, essa ideia pode não ser tão única como já foi, até porque muitos se lembrarão daquela cena do Toy Story 3 em que o urso Lotso mostra aos novatos a secção do infantário onde os brinquedos com problemas são "reparados", por assim dizer. Mas pronto, este programa cujo nome original parece ser "St. Bear's Dolls Hospital" divertia-se um pouco com essa ideia. No tal hospital de brinquedos, havia uma espécie de enfermeira-chefe que lembrava um pouco a enfermeira Joy (e tinha a voz de Helena Montez, também!) e que era uma das personagens mais ativas...também porque era uma das que mais cuidava dos brinquedos com problemas. Havia também uma senhora(??) com cara de vaca que parecia também ter um cargo importante lá no hospital...embora eu só a visse a dar opiniões e não tanto a trabalhar! Havia outra personagem com um cargo importante a que todos chamavam "Professor"...talvez ele fosse o diretor do hospital. Havia uma personagem estranha com um nariz verde...e finalmente havia o Alfinetes e o Agulhas! Desses, sim, é que eu gostava mesmo. O Alfinetes e o Agulhas eram dois funcionários do hospital que pareciam ter vários trabalhos; quem sabe se não seriam os faz-tudo's lá da instituição. Mas eles eram provavelmente as personagens mais memoráveis deste programa, porque eram os mais tolinhos. Também tinham sotaques que lembravam um francês a tentar falar português. Mais ainda: tinham uma espécie de cântico que cantarolavam de cada vez que traziam um novo paciente para o hospital em cima da maca. A cantoria era qualquer coisa como "Yatatai-yatatai, yatatai-yatatai!". Aliás, essa cantoria é das coisas que eu mais me lembro deste programa. Compreensivelmente, não é? Se eles cantarolavam isso sempre que traziam um paciente novo, seria de esperar que o yatatai-yatatai ficasse no ouvido...
Alguns episódios
- Quando o Alfinetes e o Agulhas traziam um espantalho para o hospital, a senhora-vaca ficava chocada com o estado do espantalho. Pouco depois chegava a enfermeira e também achava que o estado dele era grave e pedia logo ajuda...se bem me lembro, o problema é que ela achava que o paciente estava a perder o enchimento que tinha na cabeça e isso punha-o em grande perigo. Mas acho que o espantalho lhes explicou logo que, como era um espantalho, era normal que lhe caíssem bocadinhos de palha, de enchimento ou lá o que era...
- Num episódio em que uma personagem fazia anos (acho que era o Professor), o Alfinetes e o Agulhas ficaram com uma espécie de tarefa que era decidir sobre o bolo que iam arranjar para o aniversariante. As duas personagens resolveram pedir ajuda ao computador que tinham lá no seu cantinho, que costumava dar bons palpites. O computador mostrou-lhes uma mão com uma laranja e uma com uma tablete de chocolate. Eles perceberam a ideia e, desde logo, ficou decidido: iam fazer um bolo de laranja e chocolate para o Professor. Eis que chegou a minha parte favorita do episódio! O Agulhas pedia ao computador que lhes desse uma receita do tal "bolo de chocolate e laranja". O Alfinetes pareceu ficar alerta e chamou a atenção do colega, que respondeu "Sim, Alfinetes?". O Alfinetes saía-se então com esta: "Nós precisamos da receita de um delicioso bolo de laranja e chocolate...e não de chocolate e laranja!". Enquanto eu me ria por o Alfinetes não perceber que a ordem dos fatores não altera o produto (pelo menos na matemática), o tolinho do Agulhas concordou com o Alfinetes e preparou-se para modificar o seu pedido ao computador. Eram estes momentos de humor ou animação que me faziam gostar mais do Alfinetes e do Agulhas do que quaisquer outras personagens!
- Enquanto o hospital contemplava uma tempestade um pouco feia que atormentava o exterior, algumas personagens do programa falavam sobre espiões e coisas assim e, a dada altura, metiam na cabeça que um visitante do hospital podia ser um espião. Esse misterioso visitante, na verdade, era apenas o Professor que tinha estado na rua durante a tempestade e tinha um grande casaco amarelo com um capuz que lhe cobria a cara. Mas como o Professor, por alguma razão, não tirava o capuz - acho que o casaco estava com um problema qualquer que não deixava que o Professor o tirasse, mesmo... - quase todos no hospital não o reconheciam. Chegou a tal ponto que a enfermeira foi examinar o Professor, pensando que ele era um paciente "comum", por assim dizer. O Professor, inicialmente confuso, tentou explicar que a enfermeira estava enganada e que ele era o Professor. O problema é que justamente quando ele dizia que era o Professor, a enfermeira punha-lhe um termómetro na boca para medir a febre. Resultado: quando ele dizia "sou o Professor", a coisa soava a "sou o Fufôfâ!". A enfermeira, toda divertida, dizia que ah e tal, você tem um nome muito giro, senhor Fufôfâ! E a enfermeira ria-se como se riam os infantes que viam no ecrã aquela trapalhada toda.
Uma(s) voz(es): Helena Montez; José Jorge Duarte
Uma(s) personagem(ns): Agulhas; Alfinetes; Professor
Em relação às 3 primeiras, faço questão de deixar um agradecimento à colaboração do canal Disco Riscado. Contributo fundamental para ajudar a solidificar memórias que, na minha cabeça, já estiveram mais claras.
Informação: Espero que não me odeiem por falar aqui de um
desenho animado que, comparado com os restantes do blog, está pouquíssimo
esquecido. Mas também tenho a impressão que esta série original foi um pouco
ofuscada pela sua série-sequela, que contou com uma equipa de dobragem
diferente. E essa equipa de dobragem diferente era mais facilmente reconhecida
pelo português comum, pois contava com artistas como Ana Vieira (também
conhecida por cantar) e Quimbé (também conhecido pelo seu papel no Inspetor
Max); já a equipa que dobrou esta série original que eu ouvi contava com
artistas que o espetador comum não conheceria tão bem, como João Pinto e Paulo
Martinez.
Ora, o anime em si lembrava um pouco o
Pokémon, embora eu ache que também tinha a sua própria identidade. As
semelhanças eram várias: um mundo semelhante ao nosso em que os humanos
aprenderam a conviver com seres antropomórficos (neste caso, eram robôs) e
tratam-nos um pouco como animais de estimação, só que também travam batalhas
entre os robôs que estes parecem apreciar travar…e pelo meio acaba por haver um
torneio internacional dessas batalhas e um protagonista que fica com o robô
renegado que mais ninguém usou. Já são algumas semelhanças, não? Mas adiante, o
protagonista dos Medabots era o jovem Ikki,ex-aequo com o seu medabot chamado Metabee. Ah, outra semelhança com os
Pokémon: os nomes dos medabots eram geralmente uma mistura de 2 palavras
inglesas. Voltando, o Ikki comprava o Metabee ao comerciante Henry numa altura
em que o Ikki era dos poucos que não tinha um medabot. No início não conseguia
comunicar com o Metabee mesmo usando o medarelógio, que era um dispositivo que
se usava no pulso e servia para o medalutador falar com o seu medabot. Mas após
alguma insistência (durante a qual o Ikki até lhe chamou ferro-velho!), o
Metabee lá dava sinal de si e começava a mexer-se. Só que depois de lutar
chateou-se com o Ikki por causa do insulto, hehe…
Ao longo do anime, havia várias
personagens recorrentes. A Erika, amiga do Ikki, que gosta de tirar fotos. O
Phantom Renegade, um ladrão mascarado que é um pouco tolo. O Space Medafighter
X, um medalutador que se fartava de ganhar batalhas e que era claramente a
mesma pessoa que o Phantom Renegade, algo que era óbvio para quem reparasse no
design e na voz de ambos. O Koji, principal rival do Ikki mas também seu amigo.
O Referee, que era uma personagem hilariante por parecer só existir para
arbitrar batalhas robóticas, a ponto de aparecer vindo do nada sempre que
alguém falava em batalhar…e de chorar como um bebé quando alguém lhe dizia que
não, que afinal não iam batalhar. XD Como veem, este programa não era propriamente
preguiçoso e concedia uma boa dose de interesse e personalidade às suas
personagens. Mas, podem crer, a minha personagem favorita e uma das mais
fascinantes era, sem dúvida, o Rokusho!
O Rokusho era um medabot branco e roxo que
tinha um pouco de tudo. Tinha um bom design. Tinha um ar sério. Dizia uma
gracinha de vez em quando. Era parcialmente misterioso. Sabia ser amigo. Era
bom nas batalhas robóticas. Preocupava-se com o bem comum. E era tão especial
que conseguia usar a medaforça, que era uma técnica usada em batalhas robóticas
muito poderosa a que só poucos medabots tinham acesso. Na altura eu não
percebia bem porque é que eu gostava tanto do Rokusho, mas em retrospetiva acho
que é mais fácil perceber: o Rokusho era interessante um pouco como o Wolverine
dos X-Men era! Neste sentido: era um batalhador forte (com um braço que incluía
uma lâmina afiada, também!) que lutava pela justiça mas também era meio
solitário e costumava preferir agir sozinho. Esta aura de “velho solitário”
tornava o Rokusho muito mais interessante, sobretudo quando conhecíamos o
trauma que tornara o Rokusho um amargurado. Mas sobre isso falaremos mais em
baixo.
Os medabots lutavam entre si com o que
tinham. Muitos medabots davam tiros, embora estes não devessem ser compostos
por balas mas sim por impulsos elétricos (quem sabe?). Havia medabots que
tinham canhões no corpo. Outros tinham espadas. Alguns tinham garras, lasers,
escudos, tentáculos…até havia um que tinha apenas(?) punhos muito fortes; chamava-se
Belzelga. Também havia um grupo de criminosos que queriam roubar as medalhas (as
medalhas eram basicamente o cérebro dos medabots) a meio mundo e que usavam
todos um uniforme preto, de nome Robber Robot Gang. Havia um grupo de 3 pessoas
que se intitulava Screws Gang (a Samantha, o Spike e um moço de boné). E havia
aquela que era de longe a minha parte favorita do anime: o torneio
internacional de batalhas robóticas. Essa parte do anime dava-nos a ver
batalhas em que o fator espetáculo não faltava. Nesse torneio, havia
medalutadores representantes de muitos países; lembro-me pelo menos de ver
representadas no torneio o Egito, a França, a Jamaica, o Quénia, o México, a
Suécia e um país da Oceânia (infelizmente não me lembro de qual). Ah, e o
Japão, claro; essa era a equipa do Ikki, do Koji e do Space Medafighter X.
Alguns episódios
- Num certo episódio, espalhava-se um
rumor que dizia que existia um medalutador misterioso que tinha conseguido o
feito de nunca perder uma batalha robótica. O Ikki e a Erika ficaram muito
interessados nessa história e foram investigar. O Ikki ficou particularmente
contente porque a investigação acabou por os levar a uma espécie de faculdade
privada para ricaços onde tinha aulas uma menina bonita com quem o Ikki tinha
simpatizado muito. Essa menina chamava-se Karen e, descobríamos mais tarde, era
nada menos que a sobrinha do Dr. Aki, que era um cientista amigo do Ikki que
sabia tudo sobre medabots. Depois de uma meia dúzia de confusões na tal
faculdade, houve assim um confronto no final em que várias pessoas desataram a
lutar com os seus medabots. A Karen não gostou de ver aquela violência toda,
por isso usou o seu medabot Neutranurse, que tinha o poder de curar algumas
feridas e/ou de fazer o pessoal acalmar. A Neutranurse conseguiu acabar com o
conflito e a Erika teve uma epifania. Perguntou então à Karen se afinal era ela
o tal medalutador que nunca perdeu uma batalha. A Karen respondeu
tranquilamente que, pois, realmente nunca tinha perdido…pela simples razão que
nunca tinha combatido! Uá-uá-uá-uááááááááááááá!
- Num episódio mais tenso que divertido (sim, os Medabots tinham desses), o
Rokusho revia o seu velho amigo Baton, um papagaio-robô que tinha passado pelo
mesmo trauma que o pobre Rokusho. Esse trauma tinha sido a trágica morte do
Professor Hushi, que se bem me lembro os tinha criado. O professor, o Baton e o
Rokusho viviam felizes na mesma casa/laboratório…até ao dia em que um horrível
incêndio lavrava a casa e a vida do Professor Hushi. Em vários momentos, o
Rokusho era atormentado pela memória recorrente de correr pelo laboratório,
procurando desesperadamente o professor, lutando contra o fumo que o cegava e os
destroços que o atrapalhavam enquanto ele gritava coisas como: “Professor! Onde é que está? Consegue ouvir-me? Professor!”. É, era uma cena de grande intensidade
dramática. Mas adiante: nesse episódio, o Baton era vítima de uma falsa memória
que lhe tinham implantado no cérebro e “revelava” que o Dr. Aki tinha causado
deliberadamente o incêndio que matou o professor. A Karen ficou horrorizada e
não acreditou que o seu tio tivesse feito isso. Infelizmente, nessa altura o
Rokusho já era só raiva e não dava ouvidos a ninguém. O Dr. Aki, que quando
falava trocava o R pelo L, assegurou o Rokusho que “não tenho nada a vel com a
molte do Plofessol Hushi!”, mas não serviu de nada. Numa sequência final épica,
o Rokusho tentava vingar-se do Dr. Aki (acho que queria mesmo matá-lo…) e todos
os intervenientes acabavam no telhado, com outro incêndio a deflagrar enquanto
o maior fogo ardia nos olhos do Rokusho. O Metabee era amigo dele, mas estava
determinado a defender o Dr. Aki. Só que, para surpresa de todos, o Rokusho
revelou que podia usar a medaforça e usou-a para derrotar o Metabee com um só
golpe. Para bem de todos, antes de a coisa ficar ainda mais feia, o Baton caiu
em si e explicou ao Rokusho que a memória que tinha do Dr. Aki incendiário era
falsa; os verdadeiros incendiários tinham sido os membros do Robber Robot Gang.
- Como já escrevi, o torneio internacional de batalhas robóticas era a minha
parte favorita deste anime. Quão intensa era…e o vilão Victor, da equipa do Quénia,
era um vilão memorável e intimidante. Não precisava de falar muito para
intimidar e, efetivamente, falava pouco. E tinha constantemente uma cara séria
até dizer chega que transmitia facilmente a mensagem de que o Victor sabia
sempre como esmagar o adversário. Víamo-lo tantas vezes com essa cara que,
quando muitos episódios depois, ele fazia outra cara, aquilo tinha um impacto
enorme. E eu diria que a interpretação que João Pinto fazia da
personagem funcionava bem. Que boas lembranças…mas enfim, o Japão enfrentava o Quénia naquilo que
eu presumo que fosse o primeiro duelo da fase de grupos (como no futebol) e
começava confiante mas acabava por levar uma tareia. Isso ajudou o Ikki, o Koji
e o não-Space Medafighter X (esse quase nunca aparecia no torneio; desta vez
era a Karen mascarada) a meter os pés mais na terra e a enfrentar as batalhas
seguintes com mais seriedade. Assim, nas eliminatórias seguintes, as coisas corriam muito melhor.
Só não puderam lutar contra os franceses,
porque os argumentistas inventavam um desfecho diferente para essa
eliminatória. O desfecho baseava-se nisto: a estratégia dos concorrentes da
França – que eram os irmãos Berret, 3 irmãos com nomes parecidos (um deles era
o Jean-Guy Berret, os outros eram algo como Jean-Yves Berret ou Jean-Pierre Berret)
– era roubar à socapa as medalhas dos seus adversários e depois vencer por
falta de comparência. Os batoteiros! Para sorte dos protagonistas, eles
descobriram este esquema a tempo e, com a inesperada ajuda do Phantom Renegade,
conseguiam que o Jean-Guy Berret denunciasse os roubos aos responsáveis pelo
torneio. O Referee, que tanto costumava ser um alívio cómico, não esteve com
paninhos quentes; “Será que ouvi a palavra roubar?”, perguntou. E depois fez
uma cara de revolta que nunca o tínhamos visto a fazer! Depois disso, foi uma
questão de minutos até os responsáveis decidirem que a equipa francesa ia ser
banida do torneio. Decisão que o Referee anunciou.
- Finalmente, a final do torneio. Foi tão
épica que durou uns 2, 3 ou 4 episódios. Nessa altura, o Ikki e o Koji tiveram
o privilégio de contar com a ajuda de uma cientista que usava óculos como o
terceiro membro da sua equipa. Ela veio mascarada de Space Medafighter X
(porque o verdadeiro, mais uma vez, faltou…ele só esteve verdadeiramente a
representar a equipa japonesa na meia-final, quando eles enfrentaram a Jamaica)
e usou o medabot Belzelga, que tinha a fama de ter punhos tão fortes que
bastava um soco para inutilizar a medapeça do medabot que levasse o soco. Foi
uma batalha dramática, com voltas e reviravoltas. Ora o Japão estava por cima,
ora estava o Quénia.
A dada altura, o Sumilidon usava a
medaforça e disparava-a em direção ao Warbandit, o medabot do tal Victor, que
era claramente o melhor dos medalutadores quenianos. Mas o Warbandit, que não
planeava perder, teve a ideia de usar o seu companheiro de equipa Rhinorush
como escudo. O Rhinorush ficou um trapo, mas o Warbandit safou-se, claro. Pouco
tempo depois, o Warbandit já tinha posto o Sumilidon KO e dado pancada de criar
bicho ao Metabee. O Metabee, prostrado no chão, estava mais morto do que vivo e
o Victor chegou ao ponto de sentir dó do Metabee. Então, o Victor deu a
entender ao Ikki que não valia a pena, que a batalha estava acabada e, sempre
sério como tudo, virou as costas e preparou-se para ir embora.
De lá do fundo, um estropiado Metabee
chamou: “Iuhu! Onde é que pensas que vais?!”. Pois é; o nosso medabot
protagonista fez um esforço hercúleo para se levantar e, ainda a tremer, pôs-se
em posição de continuar a lutar. O Ikki apoiou esta decisão do Metabee e o
medabot, independentemente do seu cansaço, preparou uma medaforça para derrotar
o Warbandit de vez. Neste momento, uma grande parte da audiência pensava que
seria este o momento triunfante em que o Japão venceria o Quénia na final. Só
que, afinal, não parecia assim tão fácil, porque o Victor estava…a rir-se! Não
parecia promissor, pois não? É que ainda por cima, o que o Victor disse depois
de se rir deu a entender que o riso dele queria dizer “És tão patético por
querer continuar a levar…não sabes mesmo desistir em vez de te envergonhares
mais!”. Nestes poucos segundos, o Victor continuava de costas e ainda deu mais
uma risada que, agora, já parecia uma gargalhada diabólica. Foi então que o
Victor se virou e…milagre! Pela primeira vez vimo-lo sem uma cara séria!
Mas digo-vos: até certo ponto era preferível a seriedade! É que, em poucos segundos, a cara que o
Victor mostrava era a típica feição de psicopata de desenho animado!
Quero dizer…com um sorriso maléfico e os olhos esbugalhados! Céus, como aquele
Victor metia medo! E, mais uma vez, sublinho: nós nunca tínhamos visto o Victor
com uma cara que não fosse séria.
Tem calma, mãe, este programa não tem nada de assustad- HOLY SH*T!!!
Vê-lo de repente a mostrar aquela emoção toda
foi de estremecer, ainda para mais sabendo que a tal emoção era qualquer coisa
parecida com sede de sangue! Brrrrr, que arrepios! Mas adiante…assim que o
Victor mostrou aquela cara, bramou para o medarelógio uma ordem para o
Warbandit desfazer o Metabee em pedacinhos! (não foram exatamente essas as suas
palavras, mas estava subentendido) E o Warbandit pareceu perceber logo e – mais
uma surpresa! – preparou uma medaforça para transformar o Metabee em puré! Oh,
sim; o público todo ficou estupefacto ao ver que o Warbandit não só podia usar
a medaforça, mas também que nunca a tinha usado até uma fase tão tardia da
batalha! E…podem pensar que o Ikki e o Metabee guincharam de medo. Mas não;
mantiveram a sua pose e coragem e o Metabee lá disparou a sua medaforça contra
a do Warbandit. As duas medaforças colidiram…e houve uma daquelas explosões
arrasadoras à anime! Uma explosão que libertou pazadas de energia e, se bem me lembro, pó.
Eu sei que é mesmo difícil transmitir a
intensidade dos momentos pela comunicação escrita. Mas espero que entendam o
quanto aquele momento prendeu a minha atenção e me deu pele de galinha. Ah, e
não perguntem quem ganhou; já nem me lembro do que aconteceu a seguir! XDDD
Uma(s) voz(es): Ana Martinez; João Pinto; José Pedro Carvalho;
Melanie Baptista; Mónica Chaby; Paulo Martinez; Vasco Luz